O Achado
Ainda não havia amanhecido quando o jovem rapaz levantou da cama. Na noite anterior, antes de ir dormir, seu pai lhe mandara acordar cedo e ir buscar lenha, o tempo era de chuva, e eles tinham pouca guardada para usar na forja.
Seu pai era o único ferreiro da pequena vila montanhosa, quando jovem, ele fora para a grande cidade aos pés da montanha estudar forja. Depois de alguns anos, ele voltara para sua terra natal e passara a fazer armas de excelente qualidades para a milícia. Porém, com o tempo os ataques dos goblins, criaturas humanóides de aparência horrenda e de coração malígno, pararam e a milícia perdeu sua função.
As lanças viraram arpões na pesca do pequeno lago perto da vila, os escudos tornaram-se bandejas assim como os elmos viraram vasos para plantas que raramente floresciam, e as espadas acabaram perdidas em algum armário escuro.
Erik nunca vira um soldado da milícia trajado para combate, tão pouco vira um goblin, mas achava que sabia indentificar um pelas histórias que seu avô lhe contava quando ainda era vivo.
Ele tomou o pobre café da manhã rapidamente, tendo apenas algumas fatias de pão seco e um copo de água para ajudar a engolir. Assim que terminou, ele colocou mais algumas fatias junto com pedaço também seco de carne de bode e um cantil com água numa sacola de couro.
Passou na ferraria, pegou alguns rolos curtos de corda que iria precisar para amarrar a madeira que ia pegar assim como uma pequena machadinha de lenha para caso de necessidade.
Logo que saiu na rua, sentiu nos ossos o frio da noite de inverno, o grosso e surrado casaco de lã mal o protegia das pontadas de gelo do vento. O céu estava limpo e com poucas estrelas, de acordo com seu pai, teriam uma manha de sol com chuva vindo logo após o almoço. Em geral, seu pai acertava as previsões.
Ele foi em direção ao sul, para o centro da vila, onde se localiza o Salão Comunal. Seu avô costumava dizer, que nos tempos de prosperidade da vila, durante o verão faziam grandes festas nele, e também armazenavam comida para o inverno quando chegava a hora. E em algumas ocasiões, se reunia toda a vila entre suas paredes para discutir sobre assuntos importantes que o mestre não podia decidir sozinho. Do Salão, passou pela frente da velha taverna, “O Belo Goblin”, disse pra si mesmo. Ele sabia ler, com grande dificuldade, e conhecia todas as placas da vila.
Não havia luz dentro da taverna, nas noites de inverno, nem os beberrões costumeiros ousavam ficar fora de suas casas.
Conforme subia o caminho a sudeste do vilarejo, o vento ia ficando mais forte. Logo acima da trilha, ficava o caminho que levava para o abandonado quartel da milícia, mas não era por aquele caminho que Erik deveria proseguir, mas sim em direcão a Floresta Morta, como chamavam os aldeões o bosque de árvores que já não floresciam mais.
Da trilha que subia pelas rochas Erik chegou a um trecho de terreno aberto, alí o vento era mais forte e o frio mais intenso. Não haviam trilhas naquela área, mas o bosque seco era facilmente visível a frente. O dia já estava clareando, e ele podia ver o céu azul, limpo, sem sinal de que iria chuver. Mas ele confiava no que seu pai lhe falara, e apertou o passo em direcão as árvores sem vida.
Desde que tem memória, o bosque era daquele jeito, morto. Nenhuma folha brotava na primavera, nenhum pássaro cantava no verão naquele lugar. Segundo seu avô, o mago tentou fazer algum feitiço nas árvores, que saiu totalmente errado e as matou todas, porém deu a elas uma resistência que podia partir em dois o melhor dos machados. Essa parte da história podia ser facilmente confirmada batendo com algum objeto metálico em seus galhos nús, um som como se tivesse atingido uma pedra era ouvido, e se batesse com forca seu braco tremeria e você deixaria cair o que quer que estivesse carregando.
Conforme ia andando pela trilha da floresta, preservada porque nada mais crescia ali, as núvens comecaram a preencher o céu, imensas e brancas a princípio. “Acho que o sol não vai mostrar sua cara hoje.” Disse pra si mesmo tentando esquecer o frio. As árvores em volta de nada ajudavam contra o vento.
Se as árvores de nada ajudavam contra o vento, ficou ainda pior quando ele saiu do bosque descendo em direção a plataforma dos bodes. Um larga área verde totalmente aberta ao lado sul do monte.
A trilha ali era perigosa, não mais usada por humanos com frequência a décadas. Enquanto descia por ela, Erik observava a imensidão verde que se estendia apartir dos pés da montanha. Quando olhou para o lado, para a plataforma dos bodes, além dos animais que alí se encontravam, havia no meio deles um homem todo coberto por seu manto cinza.
Ele já tinha sido visto por Erik uma ou duas vezes na vila, sempre perto da taverna, sempre sozinho.
Mal Erik terminou a descida para a plataforma e começava a contornar uma grande pedra para poder chegar ao outro lado, os bodes começaram a se mover, passando a sua frente, prensando-o contra a pedra. Levou algum tempo para que todos eles passassem, não apenas bodes, mas carneiros, cabras e ovelhas também, e o velho acompanhando vagarosamente todos eles, nenhum caiu montanha abaixo, nenhum subiu para o lado errado do monte.
Com cuidado Erik prosseguiu seu caminho trilha acima. Não demorou e o vento passou a ficar mais fraco. Ele estava agora protegido pela própria montanha. Porém o céu ficava mais escuro, e em pouco tempo ele não enchergava mais que 5 metros a sua frente. O barulho da chuva pesada vindo podia ser ouvido acima do assovio do vento.
Ele apertou o passo, chegando a correr nos últimos instantes antes da chuva lhe atingir. O esforço em ter levantado sedo tinha sido em vão agora. Não haveria mais boa madeira para ser recolhida, apenas madeira molhada, que de nada serviria para ele.
Correndo ele se manteve concentrado na tilha logo a seus pés, tanto que não reparou quando passou direto do ponto que ela se bifurcava e acabou indo direto montanha acima. Ele não viu também o bosque que estava a sua direita, nem a grande casa que se aproximava a sua frente até que já estivesse na soleira da sua porta.
Ele nunca tinha ido alí, mas conhecia histórias sobre aquela casa a muito desabitada. Segundo todos os moradores mais velhos da vila, era a casa em que morava o mago antigamente. Sem pensar muito, querendo apenas se proteger do vendo e da chuva, Erik virou a macaneta da porta que estava aberta e entrou, fechando a porta atrás de si.
Demorou algum tempo para que ele se acostumace com a escuridão dentro da casa, mas ainda assim alí ele enchergava mais do que se estivesse na chuva. Num dos cantos do pequeno cômodo, havia uma velha cadeira de madeira, ainda em bom estado, uma pequena mesinha ao seu lado com livro grosso e pesado sobre ela, e também uma antiga lanterna ao lado do livro.
Ele caminhou lentamente até a cadeira empoeirada e se sentou nela, mas não antes sem tirar o grande casaco todo encharcado que estava usando, deixando-o no chão, ao lado da cadeira.
Colocou os pés sobre a cadeira e abraçou seus joelhos. Ele estava cansado, pois não era de seu costume correr tão rápido por tanto tempo, molhado e tremendo de frio, mesmo assim acabaou dormindo enquanto os trovões roncavam do lado de fora.
Quando acordou o silêncio era completo, não havia mais sinal de chuva e a luminosidade dentro da casa havia melhorado. “O céu deve estar limpo lá fora.” Ficou pensando enquanto se levantava da cadeira e dava mais uma olhada em volta.
Além do que ele havia visto quando entrou desesperadamente na casa, havia também, na parede oposta uma grande pintura, manchada e empoeirada de forma que ele não conseguia indentificar mais do que uma forma vagamente humanoide dentro dela. “Deve ser o tal mago.” Disse pra sí mesmo. Fora isso, não havia mais o que se ver naquele cômodo. “Acho que vou olhar por aí e ver se acho alguma coisa que me sirva como lenha.” Foi o que disse. “Ao menos não volto de mãos vazias.”
Olhou mais uma vez para os móveis daquela sala e deu uma examinada no livro. Pegou-o sem abrí-lo. Era de fato pesado. Por um momento lembrou de quando seu falecido avô lhe ensinava a ler e a escrever e resolveu levar o livro consigo, guardando-o na mochila junto com a corda, os pães secos e o pedaço de carne também seco.
“Cof-cof.” Ouviu alguém tossir quando colocou a mochila por sobre seus ombros e se preparava para entrar na próxima sala. O som parecia vir do lado de fora e, por um tempo, não deu um passo se quer. “Cof-cof-cof.” Ouviu novamente, havia alguém fora da casa e estava bem próximo da porta. Sem pensar direito saiu correndo para a outra sala, esbarrando nas caideiras de uma grande mesa de jantar e caindo junto com elas, quebrando algumas. Rapidamente se levantou e foi em direcão a primeira porta que viu, do lado oposto da sala de jantar, que era onde Erik estava naquele momento.
Ele passou correndo pela porta a fechando sonoramente em seguida. Apenas esperava que quem quer que fosse não o tivesse visto. Talves fosse o velho dos bodes, que a uma mosca sequer fazia mal, mas pouco a pouco a idéia de que o mago não estivesse morto tomou espaco em sua cabeça e ele passou a ficar horrorizado. Alí naquela casa abandonada era fácil pensar em magos malígnos comandando mortos-vivos para atacar aqueles que ousassem entrar em seus domínios.
Após algum tempo recuperando o fôlego, Erik deu uma olhada em volta. O que viu não ajudou em nada no seu medo crescente do antigo mago. A sala estava quase que totalmente queimada do lado de dentro. Pilhas e mais pilhas de madeira queimada e cinzas cobriam o centro da sala e as paredes. Não havia mais cortinas nas janelas quebradas. As únicas coisas inteiras alí eram a porta por onde havia entrado e uma outra do outro lado da sala.
Por algum tempo ficou debatendo com sí se seria seguro sair dalí ou não. Como não ouvira mais sons vindo de lugar algum, acabou decidindo que era melhor se arriscar e talvez sair daquela casa do que esperar anciosamente por algo que talves viesse, talves não.
Com cuidado, e mesmo assim fazendo muito barulho, Erik foi em direcão a outra porta. Através das janelas podia ver que ainda era dia. “Talves eu chegue em casa antes do anoitecer.” Foi o que ficou pensando constantemente enquanto caminhava para evitar pensar no velho mago.
A porta abriu com muito barulho, e se ouvesse alguém dentro da casa certamente saberia onde Erik se encontrava agora.
O que viu do outro lado da porta o deixou desnorteado. Uma cama numa das paredes, várias mesas e armários ao longo das outras, nada quebrado, nada queimado, apenas cobertos por uma densa camanada de poeira.
Talvez, se vasculhasse o quarto, achasse algo de interessante, algum objeto mágico valioso. Quem sabe conseguisse algumas peças de bronze, ou até de prata por uma bola de cristal ou varinha mágica.
Mas ele não encontrou nada disso alí. Nem se deu ao trabalho de procurar quando viu mais uma porta perto da cama. Pensando apenas em sair dalí ele se dirigiu rapidamente para a porta, abriu-a sem se importar com o rangido e acabou se encontrando numa escada de pedra, protegida ao lado e acima como se fosse um túnel. Porém escada acima, mais ou menos na metade do caminho, a luz do dia entrava por uma abertura na parede.
Um resmungo pelas costas de Erik o fez esquecer toda a precalção e correr em direção a passagem. Naquele ponto, a escada também estava quebrada, e seria impossível continuar até o topo. Sem parar para verificar a altura ele pulou da passagem, errando por pouco as pedras que se amontoavam abaixo e ao lado da escada. Rapidamente ele contornou a casa e chegou até a porta de entrada, de onde seguiu caminho pela trilha que passava ao lado do bosque.
Quando chegou de volta no ponto que descia para a plataforma dos bodes Erik parou para descansar, olhou em volta e como não viu nem ouviu nenhum sinal de estar sendo seguido resolveu sentar e comer o que havia trazido consigo.
O pão estava meio úmido por causa da chuva que havia pego, e com isso estava horrível, já a carne, apesar de já não ter mais gosto nenhum, não estava mais seca, e foi um pouco mais fácil de engolir.
No final ele acabou comendo tudo e tomado toda a água que tinha trazido. Quando terminou, o sol já estava quase mergulhando pelas montanhas do outro lado da vila, apenas algumas núvens avermelhadas pelo sol baixo restavam no céu, nenhum sinal de que havia chovido, a não ser pela lama e pedras molhadas no chão.
E lama foi o que Erik encontrou quando chegou na plataforma dos bodes, a bota afundava facilmente, tornando difícil andar por alí. Mas com calma ele foi indo, passo a passo, até chegar na trilha de subida para a floresta morta.
Alí ele encontrou mais dificuldade ainda, pois as pedras lisas molhadas escorregavam sob seu pé coberto de lama. E por várias vezes ele quase caiu, rolando trilha abaixo, sempre recuperando o equilíbrio no último instante.
A caminhada pelo bosque seco foi mais tranquila, tempestade alguma tinha o poder de mudar aquela área, nem as árvores, nem a terra debaixo delas. Foi olhando em direcão a passagem na montanha ao norte que ele viu, ou ao menos pensou ter visto, alguma coisa se mover, era pequena, e se movia sorrateiramente, mas como logo desapareceu ele não deu importância e continuou seguindo seu caminho para casa. Apesar disso, manteve sua mão sobre a machadinha que estava carregando.
Não havia ninguém na rua quando ele chegou na vila, e o vento começava a soprar frio novamente. O que era pior para Erik que não estava totalmente seco. Não se demorou na rua e foi direto para casa. Sua mãe estava preocupada, pois a tempestade havia caído muito antes do que se era esperado. Ela rapidamente esquentou uma sopa e lhe trouxe roupas quentes e secas, que ele não tardou em vestir.
Enquanto estava sentado na cozinha, após ter comido um pouco, seu pai chegou, da ferraria que era anexa a casa e perguntou se ele tinha conseguido alguma coisa. “Vamos ter dificuldade neste inverno se não conseguirmos mais lenha.” Disse ele quando Erik terminou de contar o que havia acontecido, como tinha pego chuva e ido parar na velha casa, e de como havia dormido lá. Mas obviamente não contou sobre o livro ou sobre ter ouvido alguém mais na casa, nem sobre o que achou ter visto na passagem acima nas montanhas.
A noite avançou e uma chuva calma começou a cair sobre as montanhas. Logo Erik estava deitado em seu quarto sob uma coberta de peles quentes. A lanterna ainda estava acesa e ele olhava com curiosidade o livro. A fraca luz o impedia de ver detalhadamente como era a sua capa. “Talvez amanhã eu de uma olhada em você!” Disse em voz baixa, e então colocou o livro perto da cama, apagando a lanterna para poder dormir.
* * *
Primeiros Passos
Durante a noite, Erik teve um sono agitado, sonhando com magos, anéis e goblins, chegando a falar enquanto dormia, algo que tinha acontecido pouquíssimas vezes com ele, e ele de fato não lembrava do sonho. Porém dessa vez foi diferente, além de se lembrar do estranho sonho da noite anterior, de goblins tentando encontrar algum anél perdido na casa do mago, ele também achou ter ouvido alguém falando. “Goblins.” Foi o que disse a voz em meio ao seu sonho. “Vejamos, uma aula de conhecimento de criaturas então. Goblins são criaturas baixas, tendo em torno de 1 metro de altura, e são também bem leves, pesando apenas uns 20 kilogramas. Eles são feios se comparado aos humanos, e horripilantes se comparados aos elfos. De fato, competem em feiúra com os Orcs e só perdem para criaturas terrivelmente mais maléficas que eles.”
“Porém, apesar de tais critauras existirem, não significa que os goblins sejam confiáveis. De fato, não são, nem um pouco. Se te ofertam algo, ou é amaldiçoado ou eles vão logo tomar de volta a um alto custo à quem negociou com eles. Mais possivelmente as duas opções.”
“É claro que ao longo da história muitos seres, muitas pessoas puderam lidar e comandar tais criaturas, tais pessoas em geral eram magos ou feiticeiros cujos corações eram voltados ao mal, e do mal recebiam poder para comandar tais criaturas.”
“Há um dito antigo que diz: ‘Se você tem problemas com goblins, ache alguém que tenha problemas com kobolds e deixe que os problemas se enfrentem e se anulem.’ Visto que são duas racas, que apesar de malígnas, não toleram umas as outras.”
“Agora que já lhe expliquei o que são, me responda: Que tipos de criaturas os goblins usam como montaria? Um reconhecimento extra será garantido caso saiba o correto nome e descrição de tais criaturas. Me avise quando tiver encontrado a resposta.”
Aquele fora o sonho mais estranho que Erik tinha recordacão. Agora lembrava em muito das explicações que seu avô dava para tais criaturas. E o que eles montavam, “Worgs.” Resmungou enquanto se levantava da cama. “Agora, o que são kobolds e orcs?” Ficou se perguntando enquanto se dirigia para a cozinha. O barulho na ferraria indicava que seu pai já estava trabalhando. A chuva continuava do lado de fora.
Logo ele estava ajudando seu pai. Ele trabalhava numa espada antiga, tirando a ferrugem e lhe dando um novo fio. Perto dele havia mais algumas espadas, lanças e facas amontoadas.
“Vieram do Quartel da Milícia.” Disse ele ao ver o olhar curioso do filho. “Venha, pegue aquelas no canto e amole elas.” Falou apontando para um lado onde jaziam algumas espadas brilhando como se fossem novas. “Elas precisam estar bem afiadas. E cuidado, algumas ainda estão quentes.”
Este último aviso preveniu Erik de pegar uma espada recém trabalhada no fogo, mas não impediu que ele se queimasse um pouco ao tentar escolher uma não tão quente.
Durante todo o dia Erik ficou ajudando seu pai no trabalho com as espadas. Mesmo quando seu pai saiu ao meio dia para se encontrar com alguns moradores, Erik apenas parou por alguns minutos para comer algo e voltar a trabalhar. Quando a noite caiu eles jantaram juntos, e em seguida foram dormir, sem dizer uma única palavra a respeito do trabalho. O que não lhe era novidade, pois sempre que seu pai se engajava em algum trabalho só comentava a respeito quando estivesse quase acabando.
Naquela noite Erik dormiu sem tocar no livro. Se teve sonhos não lembrou do que era, estava cansado do trabalho na ferraria, e na manhã seguinte teriam mais e mais.
“Muito bem. Worgs são as criaturas nefastas que servem de montaria para os goblins. Mas faltou a descrição de como eles são. Em todos casos, alguma recompensa já lhe é de direito.” Foi o que Erik ouviu a noite, mesmo não tendo sonhado com nada mais.
Essa rotina durou mais uns quatro dias antes que seu pai lhe falasse qualquer coisa do porque estar renovando as espadas a tanto sem utilidade.
“Há alguns dias, no dia que você foi buscar lenha. O filho do taverneiro foi caçar nas terras acima da Floresta Morta.” Começou seu pai quando ambos foram a taverna do Belo Goblin ao meio dia. “Porém, sorte sua ou azar dele, quando a chuva o pegou, ele buscou abrigo nas cavernas que ficam pras bandas de lá. E acabou sendo atacado enquanto repousava.”
“Por algum milagre de algum deus benevolente ele sobreviveu ao ataque. Muito ferido ele foi encontrado pelo pastor dos bodes, e trazido para cá em segurança. O pastor demorou muito para falar onde o econtrou, e quando disse, disse apenas que era ao norte dA Floresta.”
“Pelo tipo de ferida e pelo que ele falava enquanto dormia dia e noite, alguns moradores mais antigos da vila chegaram a conclusão de que um mal que parecia ter ido embora com o mago estava ainda intacto nas cavernas.”
“Isso pôde ser confirmado pelo que o jovem disse ontem quando acordou. Ele não conhece nada sobre goblins ou criaturas antigas, mas a descrição bate com a que os mais velhos lembram.”
“Criaturas baixas e magras, de feiúra malígna, que atacam sempre em maior número.” Erik interrompeu seu pai nesse ponto, se lembrando do que ouvira algumas noites atrás e do que seu avô contava quando criança. “Eu sonhei com goblins entrando na antiga casa do mago na noite após a tempestade.”
Por algum tempo seu pai não falou nada, apenas ficou ponderando o que Erik dissera. “Devia ter me falado antes.” Disse ele após uma caneca de cerveja. Nesse momento Erik reparou que seu pai estava com uma espada curta cingida na cintura e que uma das mão constantemente ia repousar sobre ela. “Nós iremos amanhã pela manhã. Sairemos antes de o sol nascer além das montanhas.” Falou seu pai apenas para que Erik ouvisse. “Você não deve sair de casa, e deve manter tudo trancado.”
Durante aquela madruga, um acordado Erik ouviu o barulho de pessoas na ferraria, devia ser os aldeões pegando as armas para ir de encontro ao que quer que fosse. Antes de sair, seu pai apareceu em seu quarto, apenas deu uma olhada em seu filho e saiu.
A impaciência cresceu no coração de Erik. E não encontrando forma de dormir, tomou o livro e uma lanterna e se dirigiu a cozinha. Alí ele colocou o livro bem abaixo da luz da lanterna, que ficava num suporte para permitir maior iluminação do lugar.
Ele abriu o livro com cuidado, com medo de que suas páginas virassem pó ao serem tocadas depois de tanto tempo. Mas era um cuidado desnecessário, pois nada disso aconteceu, e de fato este livro ainda se encontraria em situações muito piores antes que alguma página sua caísse.
Na primeira folha estava escrito ‘Dareo’, e várias outras letras que Erik não reconheceu junto a cada uma das letras do nome. Na página seguinte, apesar das letras pequenas ele conseguiu ler ‘de-deter-tec-tar, detectar mag-ma-maia, detectar maia.’
“DETECTAR MAGIA” Disse uma voz familiar, fazendo Erik se levantar rapidamente da cadeira e caisse junto com ela no chão.
“É Detectar Magia.” Continuou a voz. “Por acaso não sabe ler. Mas que raio de aprendiz você é. Ao menos leia direito.
Erik tinha a forte impressão de que a voz vinha do livro, e de que já tinha ouvido ela antes. Ou isso ou ele estava sonhando. Mas dessa vez não era sonho, e levou algum tempo até que Erik se desse conta do que estava realmente acontecendo. Afinal, ele havia pego aquele livro na casa do mago, era de se esperar que fosse, de alguma forma, mágico. Mas um livro falante, Erik não espera por isso nem em seu mais ambicioso sonho.
“Desculpe.” Disse Erik em voz baixa para evitar acordar sua mãe. “Mas o que é você?”
“Ora essa.” Disse o livro. “Como assim o que sou? Além de não saber ler é cego? Sou um livro. E um livro de magia é o que sou. De fato Grimório sou chamado, e meu nome dentre os grimórios pode ser lido na primeira página do livro como você bem o leu anteriormente.” O livro falava calmamente, e em tom de voz normal. Mas sua voz era dotada de uma autoridade que Erik nunca tinha ouvido antes, nem seu pai parecia ser tão iponente quanto aquele livro.
“Me diga jovem.” Continuou o livro. “Em que nível de aprendizado você está? E quem é seu mestre, visto que não lembro de ver um mago a algum tempo.”
“Não sei do que você está falando. Agora quanto a mestre, só se for o meu pai, ele quem me ensinou o que sei sobre forja.”
“Ora essa. Um completo novato.” Retrucou o livro mal deixando Erik terminar de falar. “Muito bem, pegue um papel, pergaminho ou qualquer coisa para escrever que você possa guardar e carregar consigo em seguranca.”
Obedecendo ao comando do livro Erik rapidamente procurou por um antigo livro de desenhos, havia muitas páginas em branco nele, e mesmo as com desenhos já estavam quase totalmente apagadas, pegou também uma pena e um tinteiro, que achou com certa dificuldade.
“Agora preste atenção.” Comecou novamente o livro quando Erik se postou a escrever. “Esse livro será o SEU grimório, nele VOCÊ escreverá as magias que você APRENDER.”
Durante o restante da noite Erik escreveu com cuidado, de forma que poderia ler novamente, tudo o que o livro lhe passou. Parando apenas quando ouviu barulho vindo do quarto de sua mãe, indicando que ela estava acordando.
Rapidamente ele fechou tanto o livro mágico quanto o seu próprio grimório, apagou a lanterna e foi para o quarto.
“Ora essa. Onde já se viu um iniciante me tratar assim. Nenhum um mago poderoso me desonraria dessa forma muleque.” Reclamou o livro ao ser fechado e carregado como se estivesse sendo roubado.
“Desculpa. É que minha mãe já está acordada.” Respondeu Erik. “E ela não pode te ver.”
“Ora essa. Agora, não se esqueça de estudar todo dia sobre o que lhe ensinei. Quando se sentir pronto execute o que você escreveu. No meio tempo irei lhe ensinar mais truques básicos.”
[...] Eis o link: http://grimoirium.wordpress.com/2009/08/15/mago-o-caminho/ [...]
[...] O primeiro aqui. [...]
[...] capítulo anterior pode ser visto neste post junto com o primeiro [...]