Faltavam poucos dias para o início do Festival da Colheita quando, durante o meio da noite, alguém veio bater a porta da minha casa. Segurando uma espada curta eu me dirigi até a porta, as batidas eram fortes, como se estivesse com muita pressa. Quando estava para abrí-la, alguém berrou do lado de fora. “- Vai demorar pra abrir? To congelando aqui fora!” Era meu amigo de infância, Hebron, que a muito tempo eu não via. Sem demorar mais abri a porta permitindo que entrasse. “- Tava na hora.” Disse ele se dirigindo para a lareira e atiçando o fogo quase morto. “- Cara, essa casa ta um lixo.” Continuou falando, ele vestia um trage marrom de viagem e aparentava estar muito casando.
“- Que bom revê-lo.” Falei quando ele parou por um momento. Hebron era um falador nato, dificilmente alguém conseguia calá-lo mais que alguns momentos. “- Mas porque apareceu a esta hora?” Perguntei.
“- Ah sim, aqui, toma!” Respondeu me entregando um envelope amassado e sujo. “- Me pediram pra te entragar isso o quanto antes, disseram que era urgente, além do mais, onde eu iria passar a noite.” Esta última parte era verdade, faziam anos que Hebron e sua família haviam se mudado para as cidades maiores e mais quentes ao sul. “- Você ainda tem aquele vinho da época do seu avô?” Perguntou se dirigindo a dispensa enquanto eu examinava o envelope mais uma vez, o selo, que indentifiquei pela foice cruzada com uma lança sobre o trigo como sendo do meu pai, estava praticamente rompido.
Era incomum para meu pai me mandar alguma mensagem, pois haviamos rompido relações anos atrás. Em geral era minha mãe quem escrevia, mas a letra era certamente de meu pai. Abri o envelope e lí rapidamente a carta que veio acompanhada de um pequeno mapa. Quando Hebron voltou com a garrafa de vinho e um grande pedaço de queijo eu estava jogando o envelope com a carta ao fogo, o mapa eu havia guardado.
“- Então, o que era de tão importante?” Perguntou ele colocando a comida sobre uma mesa e tirando a capa de viagem. Como sempre, estava muito bem vestido, um colete de lã negra sobre uma camisa de seda e um pequeno relógio de ouro num dos bolsos.
“- Nada de importante.” Falei. Na carta, meu pai me pedia ajuda com a colheita, o que provavelmente era mentira. “- Me responde uma coisa. Como anda a saúde de minha mãe?” Eu sabia que ela havia ficado doente há algum tempo, mas nada que fosse preocupante.
“- Pelo que eu soube.” Disse Hebron coçando o queixo com barba aparada. “- A doença dela piorou bastante, estava precisando de cuidado constante. E acho que seu pai terá problemas com os medicamentos dela, as chuvas pesadas arruinaram a maioria das colheitas, muitos terão sérios problemas no inverno.”
Na carta também estava escrito que minha mãe não estava passando bem, o que a princípio eu não acreditei.
Partímos na manhã seguinte, junto com os últimos, mais jovens, que iriam para participar dos jogos no festival. A viagem foi longa e cansativa, o terreno estava em péssimo estado, nos atrasado em um dia. No início da quarta noite noite de viagem, atravessámos os portões de Otan, o nosso destino.
Passei a noite junto a carroça e na manhã seguinte caminhei pela cidade que se preparava para a abertura que aconteceria mais tarde ao cair do dia.
Enquanto andava pelas barracas de venda que estavam sendo montadas, ouvi uma voz levemente familiar, quando olhei na direção, vi uma mulher, coberta por uma manta branca e vermelha se despedindo de um dos mercadores e se perdendo em meio a confusão de pessoas. Estava para seguí-la quando alguém me chamou. “- Derek? É você?”
Ao olhar notei um velho, conhecido da minha família, um mercador de itens distintos, como escamas de dragão e penas de grifo. Apesar de os itens serem falsos, ele conseguia vender razoavelmente bem.
“- Olá Sid. Como tem passado?” O velho mercador havia me distraído e eu perdera a mulher de vista. Por algum tempo conversamos sobre como andavam os negócios assim como a vila onde eu morava.
Próximo ao meio dia, me despedi dele e chequei o pequeno mapa que meu pai mandara, ele pedia que eu o encontrasse durante o início das festividades, mas eu resolvera ir mais cedo.
O local não foi difícil de achar, um grande galpão com a insígnia da família sobre a porta. Sem me demorar, entrei.
O lugar estava vazio, a exeção de carrocas e grandes caixas de madeira, nada indicava uma colheita que fosse precisar de ajuda. Não demorou muito para eu ouvir outras pessoas entrando, quando me virei para ver quem era, me deparei com vários homens armados de porretes e alguns com espadas, logo estava cercado.
“- Hei muleque.” Disse um deles para o que parecia ser o mais novo e mais fraco do grupo. “- Vá chamar o Senhor.” Sem responder, o rapaz saiu correndo pela porta. “- Agora vejamos.” Disse novamente momentos antes de alguém acertar com um porrete na minha nuca. O golpe me deixou bastante tonto, mas consegui manter o equilíbrio.
Rapidamente me virei para o atacante, olhando diretamente em seus olhos, buscando uma forma de desiquilibrar seus sentimentos, de trazer medo a tona. Por um momento ele hesitou, mas um segundo golpe me atingiu nas pernas, me derrubando, quando o brutamontes se recuperou do transe, me deu um chute no rosto.
“- Você não pode facilitar com esse diabo.” Disse uma voz familiar. Minha visão estava embaçada por causa do chute, mas eu a reconhecia, era meu pai. “- Você chegou cedo.” Continuou ele. “- Mas eu previa isso.”
Por um momento ele andou em volta do grupo, enquanto os dois que me bateram me levantavam e me seguravam pelos braços, me deixando de frente para meu pai.
“- Como pode ver, não tem colheita alguma. Tudo levado pela chuva.” Disse começando a andar em minha volta novamente. “- As economias que tinha, foram gastas com sua mãe. Que faleceu três dias atrás. Ela queria muito vê-lo antes de morrer, mas sua arrogância não permitiu.”
Quando ele parou uma vez mais na minha frente eu tentei aplicar a mesma técnica que fizera contra o brutamontes. E da mesma forma meu pai ficou hesitante. Mas um soco no estômago e uma pancada na cabeça que me jogou ao chão acabaram com o fraco encanto. “- Eu estou completamente falido.” Disse ele tendo se recuperado. “- Mas você vai me ajudar.” Eu não tinha entendido o que ele quis dizer. “- Podem levá-lo.” Terminou ele. Quando conseguí vê-lo novamente, o homem que havia falado primeiro entregava uma grande bolsa de dinheiro para meu pai.